quinta-feira, 16 de julho de 2009

O submundo da prostituição - 1ª Parte

Impossível dizer que não havia nenhuma ansiedade, quando saímos do jornal. Apesar de alguma experiência, era uma pauta que exigia uma certa malícia, para uma viagem ao mundo desconhecido e repleto de meandros. Precisávamos explorá-la sem vulgaridade ou falso pudor.

Eu, ligeiramente tenso. Ricardo Shimizu, o fotógrafo, totalmente desconfortável. Decidimos que eu deveria dirigir (segundo ele, é sempre o motorista quem aborda). Tudo bem, não discutimos, saímos a caça dos personagens que contariam a realidade da prostituição nas ruas de Marília.

A esperança era encontrar "Gisele", prostituta simpática, de seios fartos, figurinha fácil na rua Quatro de Abril. A conhecia de vista, por ela trabalhar perto de um jornal. Sabia que não teríamos problemas. Talvez ela até curtisse a idéia de contar histórias sobre a difícil "vida fácil".

Mas, rondamos a Quatro e, nada da Gisele! Alguns amigos disseram que ela esteve num posto de gasolina e encontrou um cliente, minutos antes da nossa chegada. A alternativa era a rua São Luiz, que nos últimos tempos recebeu potente iluminação, mas não conseguiu (sim, porque essa era a intenção), afastar as prostitutas que insistem em ocupar as esquinas.

Ao passarmos pela rua do comércio vejo uma garota de programa negra de microsaia, cabelos alisados, sentada em frente a uma loja. Outra está quase empoleirada na janela de um carro, com um pedaço de pano que não lhe cobre o volumoso traseiro. Decidimos voltar e garantir a entrevista. Shimizu reclama que perdeu a foto, depois amaldiçoa a pauta. Eu caí na gargalhada.

Quando retornarmos, percebemos que a prostituta empoleirada na janela já havia partido, restou apenas uma. Paramos o carro mas... outro veículo ja está parado mais a frente. Não! Perdemos a "nossa" garota de programa! A esperança de resolver a pauta rapidamente se acaba.

Seguimos pela São Luiz até a Castro Alves, depois da rotatória, estamos em um dos principais endereços do baixo meretrício em Marília. Uma morena de aparentes cabelos longos caminha na calçada. Decidimos parar. Desconfiada, ela fica a uns dez metros do carro.

Enquanto Shimizu fala ao telefone com o o filho e explica (sem detalhes) porque está atrasado, eu aceno para nossa possível entrevistada. A moça vestida com uma minisaia preta se aproxima. Oi, tudo bem?, pergunto. Ela responde sim, mas com uma rouquidão que nos afasta imediatamente.

Algumas garagalhadas, superado o episódio do travesti, passamos por pequenos grupos nas esquinas. Há muitos homens e decidimos não parar, até que encontramos três mulheres em frente a uma oficina de caminhões. Paramos e uma delas se aproxima, com naturalidade.

Pergunto se ela está disponível. A mulher morena, de blusa cor-de-rosa e jaqueta branca, diz que sim. Ela aparenta uns 27 anos e tem um perfume excessivamente adocicado. Os cabelos estão molhados. Estava evidente que havia acabado de chegar para mais um noite nas ruas.

Pergunto quanto custa o programa. Sem rodeios, ela diz: completo é R$30. Pergunto o que inclui "o completo" e ela avisa que não faz sexo anal. Proponho um desconto para dois e a garota negocia. Pede R$ 50. Insisto no desconto e ela encerra, dizendo que não pode fazer por menos.

Quero saber onde os programas acontecem. A garota diz que podem ser num drive-in próximo, ou num hotel do centro. Completa dizendo que no drive-in seria melhor, porque poderíamos entrar sem chamar a atenção e não haveria cobrança adicional, por se tratar de três pessoas.

Não dava mais para enrolar, antes que ela se irritasse com o cliente, abri o jogo. Revelei que era jornalista e estava interessado em conversar com uma garota de programa, para conhecer mais o mundo das ruas. A menina sorri, com certo desapontamento. Afirma que não pode sair dalí. Insisto que não precisava sair, eu poderia parar e conversar por apenas 10 minutos.

A garota tenta encerrar, dizendo que precisa trabalhar e não pode perder tempo. Uso o artifício da entrevista involuntária e disparo uma série de perguntas. Ela me conta que os programas são rápidos, em média duram 15 minutos.

Afirma que ganha cerca de R$ 180 por noite e se prostitui por necessidade. Pergunto se é perigoso e a garota diz que um vigia de moto (segundo ela, de uma empresa) é amigo e ajuda com a segurança. As respostas passam a ser mais secas. O número de rapazes, que dão voltas pelo quarteirão de bicicleta, mostra que a segurança, ou a insegurraça, é uma questão de escolhas.

Escolhemos recuar.

CONTINUA...
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quinta-feira, 25 de junho de 2009

Jornalista (...) e péssimo cozinheiro

Sou jornalista há quatro anos. Cozinheiro nunca fui e para ser franco, sou péssimo na cozinha. Embora tenha profundo respeito e admiração pela arte (ou ciência, virou uma confusão) de cozinhar, não tenho essa habilidade. E com grande infelicidade, devo admitir.

Como nunca desejei ser outra coisa na vida, não considero a possibilidade de mudar de profissão. Dos restaurantes então, devo correr quilômetros, afinal, sou tão bom para cozinhar quanto para julgar processos e recursos no STF (Supremo Tribunal Federal). Uma negação! Por isso não me atrevo a dar declarações sobre os méritos e deméritos do trabalho alheio.

Se por depreciação da minha profissão, acabar obrigado a trabalhar num restaurante, sem problemas. Se maus jornalistas não provocam estrago nenhum na socidade, que estragos provocam os cozinheiros, além de uma salmonelazinha no prato com ingredientes mal conservados?

Vou descobrir na prática se o meritíssimo Gilmar Mendes tem razão. Se a experiência der certo, também vou me credenciar a uma toga de ministro? Que mal podem provocar na socidade? Ai meu Deus, os precursores de todas as ciências humanas devem estar se contorcendo nas catacumbas!!!

E querem saber, meus nobres (e pobres) jornalistas e não jornalistas. Não aguento mais essa chuva no molhado. Vamos fazer piada!!! Chega de estresse, a cada trocentos blogs onde passo, trocentos e um estão batendo no STF ou dizendo bobagens. É tragicômico ver algumas discussões, principalmente nos comentários.


Olha esse:

Nome: elio
Cidade: santa maria
Estado:
Data: 19/06/2009 13:52


Até hoje, nunca vi ser exigido comprovação profissional para os eletrecistas, encanadores e pedreiros...etc. Então, falar em um microfone não é previlégio só para jornalistas. É só ver os comentaristas esportivos da Globo, Band , Record, Alguns são ex-jogadores sem curso nenhum.


O Juliano foi educado

Nome: Juliano Pires
Cidade: Santa Maria
Estado:
Data: 19/06/2009 23:54

Olha Elio, me desculpe te dizer isso da forma que vou te dizer, mas o que acabei de ler é de uma ignorância sem tamanho. O que os comentáristas fazem é comentar sem nenhum cunho informacional e preocupação jornalistica. Agora te pergunto, seria viável colocar um desses teus exemplos, e usando da forma como eles conhecem a técnica e se expressam, para apresentar o jornal nacional ou mesmo escrever para o jornal que tu lê diariamente? Pense bem antes de responder...


O Felipe perdeu a paciência

Nome: felipe
Cidade:
Estado:
Data: 20/06/2009 13:34

Elio, seu burro ai já se ve que você não é jornalista, qualquer idiota como você pode ser comentarista mas nunca jornalista. Diplomapara jornalista deve ser obrigatorio!!!!!!!!!!


Enfim meus caros. É pano para manga. Se o fim do diploma for representar liberdade de expressão, preparem os ouvidos. Qualquer pessoa pode se autocredenciar ao jornalismo (inclusive se auto-credenciar com hífem, se dejesar). A Torre de Babel está pronta.

Para deixar uma perspectiva mais otimista, o blog informa:

PEC para exigência de diploma a jornalistas tem 40 assinaturas
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,pec-para-exigencia-de-diploma-a-jornalistas-tem-40-assinaturas,392456,0.htm


Para mostrar que confusão é grande, o blog informa:

O Congresso não pode reverter a decisão do STF, diz Mendes
http://oglobo.globo.com/pais/moreno/posts/2009/06/24/o-congresso-nao-pode-reverter-dicisao-do-stf-diz-mendes-198557.asp
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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Com diploma, graças a Deus!

Com diploma, graças a Deus!

Demorei para comentar porque estava na cozinha, preparando algum prato que exemplifique a estapafúrdia decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre o fim da exigência do diploma para o exercício do jornalismo. Com toda habilidade que a universidade me deu, preparei um pastelão de botequim, para combinar com a "tragicômica" comparação do ilustre presidente do STF. Bem vindos amigos jornalistas a uma nova era. A era do retrocesso.

Voltamos no tempo apenas uns 50 anos. No país que só pode ser salvo pela Educação, nossos magistgrados máximos decidem que não é preciso estudar nenhuma ciência específica, para fazer jornal. Eles fazem jornal? Eles querem jornal? Que jornal eles querem ler?

Irônico que, no último post, lamentei o sepultamento do Conselho Federal e dos regionais de Jornalismo, um assunto que divide a classe há décadas. Viram nobres colegas, nós não fizemos nada para nos organizar e autoregulamentar a profissão, com medo da suposta "censura governamental" que estaria por trás dos conselhos. Eles fizeram!!! Prefiro parar por aqui.

Com a palavra, um leitor

O JORNALISTA SEM DIPLOMA

A decisão de acabar com a exigência do diploma de jornalista está longe de colocar um fim às dificuldades do setor. No passado, o jornalismo era exercido por políticos, advogados e outros cidadãos, muitos deles autodidatas.

O jornalista regularmente estabelecido na profissão (que a ela se dedicava profissionalmente) sofria a concorrência desleal dos "biqueiros" que, muitas vezes, sem qualquer qualificação e condição profissional, trabalhavam em troca da carteirinha e, com ela, saiam pela aí fazendo negociatas e denegrindo a imagem da classe.

A exigência do diploma quase zerou essa irregularidade, mas, em contrapartida, fechou a porta para os vocacionados que, por alguma razão, não conseguem frequentar o curso de jornalismo.
A classe passou a ser mais protegida e proliferaram os cursos, muitos deles sem a menor condição de formar os profissionais exigidos pelo mercado.

Houve, inclusive, o irresponsável período em que, pelo status sugerido, virou moda estudar comunicação. Muitos dos formados nestas condições, pela falta de preparo para os desafios da profissão, não souberam o que fazer do diploma e acabaram por enforcar o oficio. E nem poderia ser diferente, pois tiveram aulas com mestres que, mesmo com brilhantes carreiras acadêmicas, nunca atuaram em rádio, jornal ou TV, nem fizeram trabalhos de laboratório suficientes para a qualificação ao mercado.

A existência desses problemas, no entanto, não deveria gerar a degola da exigência do diploma. Em vez de lutar pela extinção, os grandes veículos de comunicação e as autoridades do setor deveriam buscar a melhora das escolas e a garantia de qualidade no ensino.

"Consertar" os cursos de formação seria melhor do que destruir a profissão. Com a formação adequada, os formados deixarão de sofrer ao entrarem no mercado e lucrarão as empresas de comunicação, que não precisarão mais treinar os principiantes para colocá-los em condições de enfrentar os desafios do dia-a-dia de suas redações.

Há, também, que se flexibilizar e até normatizar a participação de profissionais que tenham o quê escrever ou falar sobre os respectivos ramos de atividade e até sobre assuntos gerais, de uma forma que não venham a produzir notícias ou ocupar o espaço profissional exclusivo do jornalista. Que ocupem os importantes espaços de opinião e contribuam com o debate, mas não sejam concorrentes diretos das redações.

O jornalismo e o jornalista merecem todo o respeito, pois constituem um grande patrimônio nacional, a segurança da sociedade. Não podem, jamais, ser desmerecidos e nem vitimados pelo "liberou geral". A maior vitima seria a comunidade.


Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente e dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) aspomilpm@terra.com.br
São Paulo

A manifestação foi publicada no jornal O ESTADO DE SÃO PAULO.
Obrigado, sr. tenente
Se formos lembrar das trincheiras da Ditadura Militar, o mundo anda mesmo bem esquisito... (militar defendendo jornalistas, jornalistas omissos e ministros insanos)
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segunda-feira, 1 de junho de 2009

Conselho Federal - e regionais - de Jornalismo

Debate de décadas,
consenso entre aqueles quem não tem nada a ganhar com a baderna

Enterraram o Conselho Federal (e regionais) de Jornalismo!!!

Os ratos mesquinhos poderiam pelo menos pensar sobre alguns argumentos deste artigo

Quem tem medo do Conselho Federal de Jornalismo?

Marília Assunção *

"No exercício da profissão, o jornalista deve pautar sua conduta pelos parâmetros definidos no Código de Ética e Disciplina, mantendo independência em qualquer circunstância". Essa é a transcrição textual do artigo 5º do projeto de lei que cria o Conselho Federal de Jornalismo, enviado ao Congresso pelo Governo Federal depois de 20 anos de debates pelos jornalistas de todo o País.

Então está claro: "em qualquer circunstância" o jornalista deve se manter independente e pautado pelo princípio sagrado da ética. Por que ter medo disso? Ou melhor, vamos refletir sobre quem tem medo disso. Estamos assistindo pelo país afora uma campanha orquestrada contra o CFJ e que tem à frente os mais poderosos veículos de comunicação.

Atribuem o projeto ao Governo Lula, quando na verdade ele apenas teve o compromisso para com a categoria que o Governo FHC não teve, engavetando o projeto. O projeto do CFJ é dos jornalistas, é dos Sindicatos de Jornalistas Profissionais, e é da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Foi referendado em três congressos de jornalistas.

E é um projeto que também deve ser de todo os sindicalistas, execrados hoje na pessoa da Fenaj. E sobretudo deve ser dos cidadãos brasileiros que não têm noção do jogo de poder e de interesses escusos que está oculto nessa campanha baixa contra o Conselho, centrada na desinformação até dos parlamentares que votarão o assunto. O projeto do CFJ é de sindicalistas sim, porque queremos a informação a serviço do bem social, da maioria, mesmo que isso contrarie os interesses dos donos de muitos veículos de comunicação.

Qual a dimensão dos estragos de uma notícia irresponsável quando ela é publicada por um veículo e destrói a imagem e a vida de uma pessoa, dos moradores de uma rua, de um bairro, de uma cidade, de um estado, de um país, tudo para atender a interesses editoriais? Quando isso ocorre hoje, como é tratado? Alguém avalia o que estava nos bastidores dessa publicação?

Quem acompanha as condições de trabalho do jornalista responsável ou verifica se ele é realmente um profissional? Enquanto autarquias respeitáveis como os conselhos de médicos, engenheiros, economistas, odontólogos, psicólogos, ou as ordens como a dos advogados, seguem regulando de forma extremamente importante suas profissões, a proposta de Conselho Federal de Jornalistas recebe esse bombardeio mesmo diante da dimensão dos estragos e benefícios sociais que essa profissão pode proporcionar.

Não é mera coincidência. Porque à sociedade atingida pela cobertura jornalística só deve restar o Poder Judiciário como alternativa e às demais valem as instituições de exercício profissional também? Esse é o argumento de quem é contra.

Quem e, por qual motivo, acha que os jornalistas não devem auto-regular a profissão? Estão afirmando que há censura contida no projeto. Como isso seria possível, se o CFJ e sua base (conselhos regionais), serão formados por jornalistas? Essa é outra mentira que está no centro da argumentação dos opositores e que tem servido para confundir a opinião pública, sendo vergonhosamente usado até pelo grupo de jornalistas que sucumbe ao jogo do poder.

Os conselhos, como lembra o doutor em Ciências da Comunicação, Rogério Christofoletti, "serão instrumentos da sociedade para acompanhar a qualidade dos produtos jornalísticos e a conduta dos profissionais". Quem acha ruim que a coletividade, maior interessada na boa informação, dê palpite sobre ela sem precisar ir à Justiça? Então passemos a responder às reflexões.

Tem medo do CFJ os que exercem ou fomentam o exercício do Jornalismo sem seriedade. Os que não têm compromisso com a verdade dos fatos. Os que exercem ou promovem o exercício do Jornalismo com finalidades adversas ao interesse social. Os que exercem o incentivam o exercício sem a devida profissionalização. Os que tiram proveito pessoal com a notícia em detrimento de danos ou ganhos individuais ou sociais que ela possa causar.

* Marília Assunção é secretária estadual de Comunicação da CUT/GO

domingo, 24 de maio de 2009

Nada ficaria para trás

Dia de médico na vila é dia de festa. Doutor chega, entra nos casebres, olha as crianças e os velhos, faz dezenas de perguntas. Se não tem cura, vai embora e depois avisa que naquele endereço tem doente. Se for de morte, a ambulância logo chega.

Juliano, que resistiu até a chegada do médico e da ambulância, teve uma chance: foi internado para tratar uma afecção perinatal na cidade. Os dias que se passaram foram de vazio. As carpideiras se afastaram, como os abutres, que pareciam ter encontrado outros mortos-vivos para agourar.

Depois de um mês a morte desistiu. O menino volta para a vila. Os olhos esbugalhados alegram Joana, que consegue ver a vida renascer no semblante do filho. Juliano ainda chora, chora e chora. Pelo menos agora a doença é conhecida. O leite do peito não sustenta. Garapa também não ajuda. É normal que ele chore, pensa a mãe, afinal, o motivo é uma doença sem remédio no sertão.

Com o menino mais forte, Joana tenta retomar a vida normal. Pela manhã, acorda e se anima em andar pela roça para ver o que dá para colher e o que já secou, por causa da estiagem. Desde cedo ela aprendera que os vegetais secos só servem para tirar energia da planta. São como gente, precisam ser jogados fora se não servirem, sob pena de acabar com toda a vida que ainda resta.

À tarde, ela foi à cidade. Naquele lugar longe da urbe, os moradores têm duas alternativas. Ou vão para Morro Seco, onde tem gente de bom coração que ainda aceita marcar as compras na caderneta, ou para Mirante do Norte, lugar igualmente inóspito que se orgulha de centralizar os ineficientes serviços públicos da região.

Na empoeirada Mirante, a menina mirrada com olhar perdido desce do caminhão e segue a pé pela estreita calçada, até a agência postal. Do lado oposto do balcão está uma mulher de cabelos ondulados, óculos pesados de aros grossos. O mau humor a envelhece ainda mais.

— Fala moça -, diz com displicência, sem interromper a separação de correspondências.
— Tem carta em nome de Joana da Silva Alves, ou de Izilda? pergunta quase murmurando a menina da roça.
— Espera um pouco -, pede a atendente, que logo retorna – É do Sítio Bom Jesus?
— Sim, responde Joana.
— Tem uma que chegou há 15 dias – noticia a atendente.
— Você sabe quando o carteiro vai começar a passar por lá? - Investe a menina.
— Sei lá, minha filha. Quem sabe no dia que substituírem o carteiro que morreu há três anos - responde mal humorada a atendente.

Com a carta na mão, Joana sai da agência postal ansiosa. Abre o pequeno envelope cuidadosamente para não rasgar o papel pardo de caderno. Grande surpresa é a dela, quando confirma que finalmente a prima Ana Cláudia escreveu.

Oi prima,

Espero que você esteja bem

Faz tanto tempo que não mando notícias, que fiquei até com medo desta carta ser mal recebida. Não quero que você, a Izildinha e a vovó (se ela já não tiver morrido) pensem em mim como uma ingrata, porque deixei a terra onde nasci. A verdade que esse lugar não é feito para se viver com dignidade. Cansei de comer fava.

Espero que você entenda porque eu fui embora. Por aqui as coisas também não são fáceis. Trabalho muito e ganho pouco, mas pelo menos água não falta. Quando se tem algum dinheiro, o mercado fica pertinho. Tem coisas ruins de cidade grande também, como gente apressada indo e vindo a todo tempo. Se a gente parar, acaba pisoteado.

A vida por aqui tem melhorado. Se quiser vir para cá me escreva, eu acho que você ainda tem uma chance na sua vida e não pode ficar esperando a morte nesse lugar atrasado. Se puder, por favor, me escreva.

Com saudades

Ana Cláudia


A carta da prima, que trocou os flagelos de Morro Seco pela angústia urbana, seduziu Joana. Meses se passaram e, depois de trocar algumas correspondências, ela já considerava a hipótese de fazer o mesmo caminho, para salvar seu filho do vale da miséria.

Tirando Izildinha, nada deixaria para trás. Depois que a empreiteira da estrada foi embora, o pai de Juliano sempre fora uma sombra do passado mesmo. Nada de importante ficaria para trás.

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

As carpideiras

Carlos Rodrigues,
em prosa

Palavra mais sem significado é esperança, quando se vive avizinhado da morte. Abutres pairam sobre o dia e curujas crocitam noite afora. O som convida para um baile macabro, daqueles em que o final é bem conhecido. Na aridez daquela terra, nascer e morrer são ciclos breves, mas com tempo suficiente para sonhos e ilusões.

Dia vai e noite vem. Barriga cresce. A velha vem de encontro na estrada e pergunta se é doença. Tímida, a menina de olhos turvos e tristes menea a cabeça para dizer que não, afinal, de que adiantaria mentir agora. Faltam poucas luas para Joana dar à luz.

— Doença nada, Dona Madalena. Por aqui também se assustaram comigo, mas eu tô pra ter neném - sorri e continua - Faz tempo que não vejo a senhora, como andam as coisas em Mirante do Norte?

— Ave cruz menina, sua mãe faz falta mesmo! Cadê sua irmã pra botar um pouco de juízo nessa cabeça! Criança hoje em dia dá muito trabalho - bronqueia a velha com rugas na testa.

— Eu sei - responde Joana, sentindo o peso da reprovação.

— Mas não se acanhe filha, eu falo porque quero seu bem - atenua. - Você é muito nova para os desgostos da vida. Aliás, desgosto responde sua pergunta. Mirante continua a mesma coisa, pra melhorar aquele lugar, só se Deus fizer o mundo de novo - reclama.

Depois de mais uma dezena de reclamações, a velha Madalena ajeita o lenço sobre a cabeça e segue seu caminho, sobre a carroça de rodas tortas, puxada por uma égua coxa. Joana observa a vizinha de muitos quilômetros se afastar. Na estrada passa pouca gente. Esperança nunca passa.

O ciclo dos abutres e das corujas prossegue. O giro das fases lunares anuncia que uma nova vida está por vir. Ladeada pela parteira da vila e pela irmã Izildinha, herança única da família de outros tempos, Joana grita com as dores do parto. A parteira sabe que desta vez não será fácil. Ela faz o que pode, prolapso do umbilical não é o único problema.

Ninguém quer ouvir o som do silêncio. Tempo passa e a chance de vida parece passar também. Alívio. O choro de criança se multiplicou: agora mãe e filho choram. A morte veio até a porta, mas não entrou na combalida casa onde nasceu o pequeno Juliano. O som da vida contagia a inquieta platéia de curiosos, que espia atrás da cortina de tecido surrado.

Pena que o ciclo dos abutres e das corujas não pára naquela terra. O choro não é mais do som da vida e Juliano dá sinais de fraqueza. A cada dia, o crocitar das corujas assusta mais. Joana se angustia e chora com ele. Chora mais ainda no dia em que ele pára de chorar.

Agora as corujas têm companhia. As carpideiras começam a passar com mais frequência perto do casebre. A única diferença em relação às corujas é que as aves sombrias não falam.

Sedutoras da morte, aquelas mulheres parecem não esconder a satisfação de poder chorar com terços metidos entre os dedos. Enquanto elas vem e vão, sob o colchão de espuma encardido e o pano amarelado, Juliano luta para não dar aos abutres o sabor da morte. Luta em silêncio, luta intimamente.

fonte da imagem: http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2007/10/sertao-1.jpg

* Nota:
Como meus leitores não devem passar de meia d
úzia,
não tenho problema nenhum em postar
minha "papagaiada" aqui no blog

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sábado, 16 de maio de 2009

Os pátios da vida

Estive hoje num lugar bem familiar, semelhante ao que já estive por muito tempo.
Logo na chegada, cartazes divulgavam a "Tarde Legal" ...tem sorvetes e pastéis, tudo a apenas um real.

Quem tinha dinheiro pegava a fila, comprava sorvete, pastel, depois corria para o pátio, onde continuava a correria. Quem não tinha... não tinha motivo pra parar.

Crianças gritavam, corriam e... gritavam e corriam. Na verdade, agora que corro e grito bem menos, nem me lembro mais porque corríamos e gritávamos tanto. Sei que todos nós (ou a esmagadora maioria) também correu e gritou muito um dia.

Ao lado de uma mesa enfeitada com modestas plantas, de flores pontiagudas e avermelhadas,
estava a diretora ao microfone, também gritando... pedindo atenção. Não demorou muito e ela parou de gritar e começou a falar em tom solene, somente para quem queria ouvir.

Mas até quem queria ouvir se dispersava e olhava para os lados, em meio a tantos ruídos e movimentos. É uma constatação científica: temos tendência a observar mais o que está em movimento, do que aquilo que está parado. Esse regra nem está acima da lógica, é fácil explicar.

Mesmo que o imobilismo tenha a capacidade de oferecer uma representação mais fiel daquilo que se observa, é o movimento que queremos ver. Certamente, porque nossos olhos se sentem tentados a vencer a barreira do "além estático", e proporcionar ao cérebro a experiência que sempre pode surpreender, a partir do próximo movimento.

Eu também tentei me concentrar na simpática senhora, de voz suave, sorriso afetuoso e quase suplicante... mas não censurei minha mente, quando os olhos se distrairam. Passaram pela quadra, onde se corre para vencer, e pelo parquinho, onde se corre para disputar o brinquedo mais interessante.

Por longos minutos, meu olhar fitou aqueles que corriam sem destino. Mesmo com a aparente falta de destino, correr sempre nos faz chegar a algum lugar. Leva a pátios bem maiores, encantadores, apesar das muitas quedas e gritos de dor.
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sábado, 9 de maio de 2009

Coisas de sábado

Anota o endereço

Hoje liguei para um amigo. Na verdade para vários, mas este me fez parar para pensar como acabamos virando uma representação de uma parte de nós mesmos. É estranho pensar que dificilmente seremos lembrados e reconhecidos pelo todo, mas por um fragmento do que somos.

- Alô
- E aew tranqueira, beleza?
- Fala 'Zé Carlin'!!! Como vão as véia...? (piada interna, não dá para explicar agora)
- Hahahahah!!!! Vão bem, muito bem (mais risos). O que vc está fazendo?
- Tô travado
- Putz, é a coluna?
- Não doido, to travado de bêbado!!!
- Hahahahahaha!!!
- Além de travado, o que você está fazendo?
- Fala o endereço
- Quê???
- Você vai me convidar para uma festa, não vai?
- Como você sabia?
- Sei lá... eu sabia
- Boa, tá lendo mente agora. Anota aí, avenida...

Que fragmento é esse???
Preciso rever meus conceitos... rsrsrs
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domingo, 3 de maio de 2009

Coisas de domingo

Se Deus fez o mundo em seis dias e descansou no domingo, como ensina a tradição Cristã, deve ter sido entediante ficar sem fazer nada depois de tanta adrenalina. Nessas horas é que cabe uma pergunta: nós que gostamos do que fazemos, vivemos para trabalhar?

Depois de uma temporada inteira de Càrnivale (terminei de ver a série) e do nada excepcional Quem quer ser um milionário, chega de ficção. Até o Sodoku do jornal eu fiz no banheiro, mas... quem quer saber sobre isso?

Não importa. O fim de semana foi bom e está acabando, para mim, felizmente, sem a musiquinha do Fantástico. Que acabe mesmo! Mas, sabe, não posso mentir: isso me incomoda

Como posso achar um porre o dia feito para descansar? Tudo bem... um desconto, já que ainda não é o 5º dia útil. Pelo menos eu poderia morar perto da Juréia, para montar acampamento no fim de semana e ver o sol nascer.

Aliás, pertinho dalí tem uma cidadezinha chamada Boiçucanga. Dizem que é uma das poucas praias brasileiras voltadas para o oeste. Dá para ver o sol nascer em Juréia e depois assistir o poente em Boiçucança. Ops... voltando para a realidade dos itambés.

Preciso de férias, não consigo descansar nos fins de semana.
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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Ministro também tem saco!!!

Saia às ruas, presidente!!!

.... sem ouvir piadinhas do baqueiro bandido?? Eu duvido

Esse blog está ficando esquisito, virando um Frankenstein

de Susan Boyle à Gilmar Mendes??

que patifaria é essa??

Acredito que esta cena de bate-boca esteja na maioria dos noticiários. Aconteceu ontem, no STF (Supremo Tribunal Federal) e provocou muita polêmica. A verdade é que até ministro tem saco.

video

Escrevi o texto abaixo na "central do cidadão" no site do STF, mas logicamente isso não quer dizer nada. Mandei para os gabinetes dos ministros, pelo menos assim algum assessor talvez imprima e coloque numa pilha de papel. Se eu fosse ministro, leria.

No banheiro a gente não faz nada mesmo... excelente ocasião para pegar umas correspondências e ver o que acham da gente. Pior para quem tem prisão de ventre e poucos amigos.

Segue o texto:

Uso esse espaço para dizer, a não sei quem, neste honrado órgão ao qual não nos iludimos a ter acesso, que considero fundamental punir o Sr Ministro Joaquim Barbosa.

Onde já se viu uma pessoa na sua posição dizer a verdade, e em plena sessão. É um absurdo! Que seja punido e excluído do STF, antes que também se torne um fantasma da justiça falaciosa.

Ou pior. Antes que se contamine pela arrogância do senhor presidente (Gilmar Mendes) ou pelo espírito permissivo dos demais. Barbosa não deve ser santo, mas pelo menos dá a cara a tapa.

O interessante, para nós cidadãos, é que tudo foi gravado. Foi parar no youtube e tem centenas de milhares de visualizações. Independente da punição ao "infame" ministro, ficou claro para todos quem usou a expressão "lição de moral" de forma imbecil

Só porque é presidente, "Gilmar Dantas" pode ofender cinicamente os demais? Levou um cruzado de direita, que metade do país estava a fim de dar há muito tempo. O pior, como ele mesmo é o juiz, decretou o fim da luta, encerrando a sessão. Na lona.

"Saia à rua, ministro Gilmar. Vossa excelência quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas do Mato Grosso!!!", falou e disse Barbosa.

Se ele atendesse a sugestão... Eu queria encontrar o ministro Mendes (não como repórter, como já aconteceu e fui obrigado a ouvir as respostas cínicas). Duvido que conseguiria escapar das piadinhas sobre o banqueiro Daniel Dantas. Eu conheço várias.

O caso do banqueiro bandido que o Mendes mandou soltar é apenas uma amostra da recente decadência moral do Judiciário, que "Vossa Arrogância", o presidente, tem aprofundado.

Ps: essa mensagem pode ser considerada ofensiva e deletada, mas isso não fará mudar a opinião de milhões de brasileiros

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